Amor, Relações, Vínculo, Traição

>> quinta-feira, 28 de maio de 2009

A primeira pergunta que cabe fazer neste post, como mero intróito do raciocínio que tentarei explanar, relaciona-se com aferir se o ser humano é por natureza monogâmico. A resposta parece ser negativa. Não existe nenhum dado em termos da natureza humana, muito menos da natureza animal, que nos indique que, naturalmente, o Homem é monogâmico. As indicações parecem ir em sentido contrário.

Mas, julgo eu, uma grande maioria das pessoas estabelecem relações, monogâmicas, relações essas a que inere a fidelidade. Porque é que isso sucede? Por duas razões fundamentais. Em primeiro lugar, por uma questão de índole racional, isto é, o homem visa a integração na sociedade, objectiva comungar dos valores da sociedade ocidental e viver numa estabilidade que lhe permita constituir família, praticar a sua profissão, tendo estabilidade afectiva, sexual, familiar, etc. Por outro lado, o ser humano ao estabelecer relações, ao se integrar na sociedade, experienciando diversas vivências, tende a conhecer pessoas e a estabelecer relações, mais ou menos intensas, com as outras pessoas. Um desses sentimentos será a paixão, outro será o amor. Sobre a distinção dos dois, já aqui escrevi. Assim, parece que as mulheres e os homens serão fieis, em primeiro lugar, por uma questão sentimental, porque o amor que nutrem pelo companheiro ou companheira sonega espaço para outras relações da mesma estirpe. Em segundo lugar, por uma questão, puramente racional, de integração nos valores e no modelo da nossa sociedade, e de estabilidade a vários níveis.

Posto isto, a fidelidade não resulta de um vínculo. Não resulta dos nomes que se atribuem às relações constituídas. Se assim fosse, duas pessoas que se apaixonam, mas que evidentemente não começam logo o namoro, seriam infiéis, pois não tem qualquer compromisso. E duas pessoas, separadas de facto, desligadas de uma vida em comum, não vivendo em comunidade de mesa e de leito, que mantêm um casamento por aspectos burocráticos, seriam fieis, isto é, não se envolveriam com mais alguém. Não é pois a relação que motiva ou desmotiva alguém a ser infiel. Pelo contrário, no seguimento do afirmado, é o sentimento e a estabilidade que levam a que as pessoas se pautem por uma atitude monogâmica e fiel.

Mas se assim é, porque é que se fala em traição, por exemplo, entre namorados e não se fala quando duas pessoas gostam uma da outra, mas não estabelecem qualquer relação? Pelas mais variadas razões, mas não, por se considerar a relação, o vinculo, como a fonte do “dever” de monogamia.

Uma pessoa que trai outra, e cingindo-me às relações de namoro ou de casamento, magoa a outra pessoa não por se intitular de namorado ou namorada, mas porque falha em princípios absolutamente elementares e que em nada têm que ver com o nome que se dá à relação.

Normalmente, associado a uma traição, estão associadas as seguintes realidades:

• Uma mentira. Poderá ser mais ou menos espaçada no tempo, mas normalmente, existe sempre uma mentira. Mesmo que por poucas horas. A pessoa mente, e talvez isso seja o mais complicado. Em casos normais, mas também os há anormais, ninguém, minutos antes da traição, não vai ligar à outra pessoa a agradecer a confiança ou a prometer uma noite calma. Será uma omissão, até mais do que uma mentira. Mas existe. E isso, talvez seja o pior.

• Existe uma tremenda desilusão, porque, das duas uma. Ou a traição é algo continuado, com alguém porque se nutre algum sentimento, e a desilusão é dolorosa, porque, verdadeiramente, outra pessoa ocupa um lugar que deveria e que se julgava ser exclusivo, ou foi uma coisa de momento, e a desilusão é por essa pessoa não se ter deixado controlar por um qualquer impulso, por si só estranho, por não ter sido capaz de resistir, de chamar a si o elemento racional e sentimental, destruindo uma relação, de meses ou anos, por causa de uma hora (na melhor das hipóteses) bem passada.

• Pelo respeito e admiração que tínhamos pela pessoa que trai desabar. Quando nos entregamos a alguém, de alma e coração, é porque, para além de amarmos essa pessoa, reconhecemos nela, uma exemplo, um modelo a seguir, alguém que seria totalmente incapaz de trair, de ser infiel, de magoar, de mentir, de ceder perante impulsos carnais, que nem nunca equacionámos poderem existir na mente de quem compartilhamos a nossa vida. Quando esse modelo de vida, que, suponhamos, até só tinha estado connosco, em toda a sua vida, trai, é o desabar desse modelo de vida. Perdemos um exemplo e ganhamos outro. Perdemos o exemplo do que considerávamos que todos deveriam seguir. Ganhamos o exemplo, de precisamente aquilo que não se deve fazer.

Existem portanto inúmeras realidades, tristes, que associamos a uma traição. Para além do sentimento de injustiça, de para além de traídos, vermos a estabilidade desabar, e de continuarmos a amar uma pessoa que ou já não nutre por nós esse sentimento ou não merece esse sentimento. A outra pessoa, provavelmente, fez o seu luto, por dentro, isto é, durante alguns meses, teve o melhor dos dois mundos. Uma relação, com tudo o que de bom está inerente, e ao mesmo tempo se foi desligando até ao golpe final. Quem é traído terá que fazer esse luto por dentro. Sozinho (obviamente com a ajuda de amigos, família, e para mim, o mais importante, a ajuda de Deus).

Mas como vos disse, ninguém fica triste, porque se violou a nomenclatura escolhida para a relação. E pode existir traições, e existe com frequência, entre amigos. Com um conjunto de consequências igualmente nefastas. Não é portanto o vínculo, que faz com que existam mais ou menos desilusões, mais ou menos traições. Nada disso.

Termino, após traçar este quadro geral, com algo que não sendo a solução perfeita, se aproxima. Sinceridade. Falar muito, falar em cada momento. Explicar, sem medos, a cada momento, o que sentimos, pensamos, experienciamos. Falar do tal rapaz que é giro ou extremamente inteligente da nossa nova turma. Referir a rapariga culta com quem gostávamos de ir beber café. Falar da loira irresistível que não para de mandar SMS, tendo nós que nos controlar para não ir mais à frente. Falar da tal festa de quinta à noite onde dançamos mais junto daquela pessoa.

Se falarmos em cada momento, explicarmos as coisas, dificilmente poderemos trair alguém. Dificilmente a confiança poderá ficar abalada ou poderemos constituir a desilusão para alguém. Se formos sinceros a cada momento, pouco egoístas e com uma dimensão humana e social, dificilmente trairemos.

Já vos falei aqui de amor, num post intitulado Love.

Já vos tinha referido qualquer coisa sobre o que penso sobre traição e relações amorosas.

Hoje acrescento o elemento vinculo, relevando o vinculo sentimental, e não atribuindo relevância ao vinculo “contratual”. Procurei juntar todos os elementos, num texto mais ou menos longo, não recomendável a leituras apressadas, mas para o repouso do sofá, com tempo para reflectir um pouco sobre o aqui foi escrito, sem qualquer pretensiosismo, mas com a esperança de que este texto constitua material de reflexão sobre alguns dos problemas em que me tenho debruçado nos últimos tempos.

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